Tornar a internet um instrumento de informação e não de desinformação é um dos grandes desafios da nossa era. Sabemos que o compartilhamento de boatos, mentiras, fofocas, notícias falsas, verdadeiras, mas com uma “pitada” de sensacionalismo, e até correntes, constitui um fenômeno muito antigo. O grande ponto é que, dependendo do contexto, isso pode gerar sérios e por vezes irreversíveis desdobramentos, principalmente quando o assunto ganha grandes proporções com os meios digitais.

Pesquisas mostram que a maioria dos internautas tem dificuldade em distinguir boatos de informações confiáveis – e olha que estamos falando de adultos, indivíduos dotados de maturidade e, em tese, com maior discernimento.

Armadilhas digitais

Agora imagine uma criança recebendo no grupo de amigos da escola uma mensagem que diz: “Se em x tempo você não compartilhar esta mensagem, algo muito ruim vai acontecer” ou “Acabei de ganhar um álbum da copa do mundo 2018 com 100 figurinhas. Cadastre-se e ganhe também!”. Como eles poderão resistir?

O Brasil foi líder em ataques de phishing em 2017, o que significa que não só crianças, mas todos estamos vulneráveis a cair nas armadilhas do universo digital. E quer saber o pior? Não são os bots os maiores multiplicadores de notícias e links falsos e sim as pessoas, que não só acreditam, mas, passam pra frente tudo o que recebem sem filtrar ou questionar.

Nós, adultos, não tivemos e não temos, muitas vezes, a oportunidade de aprender aos poucos a utilizar tudo que as novas tecnologias da informação e comunicação oferecem, mas nossas crianças sim. Daí a importância de se observar a classificação indicativa para a liberação de determinados acessos e, com a concessão deles, de se estabelecer com a criança, um diálogo franco e com significado. É preciso que compreendam a necessidade de uma reflexão prévia, já exercitando seu pensamento crítico, e estejam conscientes de que compartilhar qualquer coisa na ou por meio da internet não é algo tão simples quanto parece.

Nem tudo que reluz é ouro

Nem tudo que se lê, vê ou ouve na internet traduz, necessariamente, a realidade dos fatos.  O exercício é simples: sempre que se deparar com alguma notícia alarmante, uma campanha muito sensacionalista, uma oferta absurdamente imperdível ou uma chance aparentemente única, questione antes de passar pra frente, com isso você pode evitar, inclusive, de ficar conhecido como o “rei das fake news”.

Idem com relação a correntes, que na maioria das vezes começam como uma brincadeira e de tanto circular acabam ganhando uma suspeita de que talvez possa fazer algum sentido. Quando não escondem vírus, capazes de clonar o dispositivo e até roubar os dados, representam uma isca eficiente para pegar aqueles que acreditam em tudo. Por vezes, algumas correntes têm por simples objetivo conseguir interações e até uma estranha forma de chamar a atenção. Algo como: “Você é especial! Repasse esta mensagem para 10 amigos especiais, inclusive eu, se também assim me considera”.  

O ideal é ignorar e orientar a criança para que simplesmente ignore esse tipo de mensagem, explicando que nada disso possui fundamento e que, além de uma prática sem fim, podem representar riscos.

E isso vale também para os pais que acham “fofas” as pesquisas/correntes de perguntas sobre os filhos que circulam nas redes sociais, que acabam não só compartilhando detalhes sobre seus pequenos, como incentivando outros pais a fazer o mesmo.

Por fim, convém lembrar que exemplo é tudo e se o objetivo é ensinar nossas crianças a tirar o melhor e mais seguro proveito das novas tecnologias, como disse o patrono da educação brasileira Paulo Freire “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.”

Alessandra Borelli

Advogada, Diretora Executiva da Nethics Educação Digital, diretora do Departamento de Segurança da Fiesp, onde coordena a frente de Educação e Cidadania Digital, coautora do livro Educação Digital e Coordenadora do Manual de Boas Práticas para Uso Seguro das Redes Sociais da OAB/SP.

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